247 — “Um jogo de futebol — e nada mais.” Foi assim que o técnico Lionel Scaloni tentou reduzir a tensão em torno do confronto entre Argentina e Inglaterra pela semifinal da Copa do Mundo, nesta quarta-feira às 16h. A declaração foi dada depois da vitória argentina por 3 a 1 sobre a Suíça nas quartas de final, enquanto os ingleses avançaram ao derrotar a Noruega por 2 a 1.
A tentativa de Scaloni de separar o futebol das disputas históricas, no entanto, contrasta com o ambiente que antecede a partida. Segundo artigo publicado pelo site acadêmico The Conversation, imagens de confrontos entre torcedores argentinos e ingleses em Miami, além de vídeos com cânticos relacionados às Ilhas Malvinas, a Diego Maradona e a Lionel Messi, mostram que o duelo continua carregado de significados políticos, militares e culturais.
Em uma das manifestações registradas, jogadores argentinos cantaram: “Pelas Malvinas, por Diego, pela última de Leo!”. O cântico reúne três elementos centrais do imaginário nacional argentino: a reivindicação de soberania sobre o arquipélago ocupado pelo Reino Unido, a memória de Maradona e a possibilidade de Messi disputar sua última Copa do Mundo.
Diante do risco de novos episódios de violência, as autoridades reforçaram a segurança e o policiamento em Atlanta, cidade que receberá a partida. O objetivo é impedir que a tensão acumulada ao longo de décadas transforme um encontro entre duas das principais seleções do mundo em um cenário de confrontos fora de campo.
Uma ferida aberta desde a Guerra das Malvinas
Poucas rivalidades esportivas carregam tanto peso histórico quanto Argentina e Inglaterra. O principal ponto de tensão é a Guerra das Malvinas, travada em 1982, quando os dois países entraram em conflito pelo controle das ilhas do Atlântico Sul.
A Argentina reivindica a soberania sobre o território, denominado Islas Malvinas, enquanto o Reino Unido mantém o domínio do arquipélago, conhecido pelos britânicos como Falkland Islands. A guerra durou pouco mais de dois meses e terminou com a rendição argentina, deixando centenas de mortos e uma ferida ainda presente na sociedade do país sul-americano.
Essa memória reaparece nos estádios sempre que as duas seleções se enfrentam. Um dos cânticos mais conhecidos da torcida argentina é “El que no salta es un inglés” — “Quem não pula é inglês”. A expressão não se limita a provocar o adversário: transforma a identidade inglesa em símbolo daquele que estaria fora da comunidade nacional argentina.
Outra expressão usada por alguns torcedores é “Ingla-perra”, jogo de palavras depreciativo que combina “Inglaterra” com “perra”, palavra espanhola que pode ser traduzida como “cadela”. Embora grosseiras, essas manifestações revelam como a linguagem do futebol se converteu em veículo para ressentimentos que vão muito além das quatro linhas.
Maradona, a “Mão de Deus” e a revanche de 1986
A rivalidade alcançou seu ponto máximo esportivo na Copa do Mundo de 1986, realizada no México. Apenas quatro anos depois da Guerra das Malvinas, Argentina e Inglaterra se enfrentaram nas quartas de final.
Diego Maradona marcou os dois gols da vitória argentina por 2 a 1. O primeiro entrou para a história como a “Mão de Deus”: o camisa 10 tocou a bola com a mão antes do goleiro inglês Peter Shilton, mas o árbitro validou o gol.
O segundo foi uma obra-prima. Maradona partiu do campo argentino, superou sucessivos adversários e marcou aquele que seria posteriormente chamado de “gol do século”.
A partida foi interpretada por muitos argentinos como uma espécie de revanche simbólica pela derrota militar de 1982. Anos depois, Maradona justificou o gol irregular com uma declaração que se tornou célebre:
“Para mim, foi como roubar um ladrão.”
O jogador se consolidou, assim, não apenas como um ídolo esportivo, mas como uma figura de resistência, orgulho nacional e afirmação argentina diante do antigo poder imperial britânico.
Beckham, Simeone e a eliminação inglesa em 1998
Os conflitos entre as duas seleções continuaram depois de 1986. Na Copa do Mundo de 1998, disputada na França, Argentina e Inglaterra voltaram a se encontrar nas oitavas de final.
A partida terminou empatada por 2 a 2, mas ficou marcada pela expulsão de David Beckham. O meio-campista inglês recebeu o cartão vermelho após atingir Diego Simeone com um movimento da perna enquanto estava caído no gramado.
A Argentina venceu a disputa por pênaltis, e Beckham tornou-se alvo de críticas intensas na Inglaterra. Durante meses, o jogador foi responsabilizado pela eliminação de sua seleção, enquanto Simeone foi acusado pela imprensa inglesa de exagerar na reação para influenciar o árbitro.
O episódio acrescentou uma nova camada à rivalidade, combinando acusações de provocação, simulação e injustiça com o histórico político que já acompanhava os confrontos.
Jogadores argentinos têm vínculos com o futebol inglês
A relação entre os dois países, porém, não é feita apenas de hostilidade. Diversos jogadores argentinos construíram carreiras de destaque no futebol inglês, especialmente na Premier League.
Cinco atletas da atual seleção argentina atuam em clubes ingleses, entre eles o goleiro Emiliano Martínez. Ao comentar o reencontro com jogadores da Inglaterra, Martínez afirmou:
“É bom jogar entre amigos.”
A frase evidencia uma das contradições do confronto. Enquanto as torcidas e parte do imaginário coletivo tratam a partida como uma extensão de disputas nacionais, os próprios jogadores dividem clubes, vestiários, treinamentos e relações pessoais durante grande parte da temporada.
A Premier League tornou-se um dos principais destinos dos talentos argentinos. Nomes como Sergio Agüero, Carlos Tevez, Javier Mascherano e Ángel Di María passaram pelo futebol inglês, com diferentes níveis de identificação e sucesso.
A Inglaterra ajudou a criar o futebol argentino
Outra contradição histórica é que a maior paixão popular da Argentina tem raízes justamente na Inglaterra.
O futebol foi introduzido no país durante o século XIX por trabalhadores, engenheiros ferroviários, comerciantes, proprietários de terras e investidores britânicos. Naquele período, o capital inglês ocupava posição central na economia argentina, especialmente nos setores ferroviário, portuário e comercial.
Clubes e instituições esportivas foram fundados por integrantes da comunidade britânica. A própria Associação do Futebol Argentino está entre as entidades nacionais mais antigas do mundo.
A influência econômica e política do Reino Unido foi tão profunda que alguns historiadores descrevem a relação anglo-argentina daquele período como uma forma de “império informal”. Embora a Argentina fosse politicamente independente, parte relevante de sua infraestrutura, de seu comércio e de seus investimentos estava vinculada aos interesses britânicos.
Com o passar do tempo, entretanto, o futebol deixou de ser uma prática restrita às elites e aos imigrantes ingleses. O esporte foi apropriado pelas classes populares, ganhou características próprias e se transformou em um dos elementos mais fortes da identidade argentina.
A Argentina passou, então, a enfrentar e derrotar os criadores do jogo utilizando um estilo próprio, marcado pela habilidade individual, pela improvisação e pela ideia da “viveza criolla”.
Uma relação marcada por invasões e disputas territoriais
As tensões entre argentinos e britânicos são anteriores ao futebol. Entre 1806 e 1807, forças inglesas realizaram duas tentativas de invasão da região do Rio da Prata, que ainda fazia parte do Império Espanhol.
As tropas britânicas foram derrotadas pela resistência local. Os episódios contribuíram para fortalecer a consciência política dos habitantes de Buenos Aires e são considerados parte do processo que levaria à independência argentina.
Em 1833, no entanto, o Reino Unido ocupou as Ilhas Malvinas e expulsou as autoridades argentinas que estavam no arquipélago. A ocupação deu início a uma disputa de soberania que atravessou os séculos XIX e XX e permanece sem solução.
Os dois acontecimentos tiveram resultados opostos: as invasões do Rio da Prata terminaram em derrota britânica, enquanto a tomada das Malvinas consolidou o domínio do Reino Unido sobre as ilhas.
Cada confronto entre Argentina e Inglaterra, portanto, reativa simbolicamente esse passado. As partidas funcionam não apenas como competições esportivas, mas como rituais nos quais memórias históricas são transmitidas entre gerações.
Futebol e política nunca estão completamente separados
A tentativa de Lionel Scaloni de tratar a semifinal como “um jogo de futebol — e nada mais” busca preservar os atletas e reduzir a tensão. Mas a história mostra que grandes competições internacionais dificilmente conseguem permanecer isoladas das circunstâncias políticas.
Copas do Mundo reúnem países com interesses, alianças, conflitos e experiências históricas distintas. Os jogadores representam seleções nacionais, os hinos são executados antes das partidas e as bandeiras ocupam as arquibancadas. Mesmo quando dirigentes e treinadores defendem a separação entre esporte e política, os próprios rituais das competições reforçam identidades nacionais.
O artigo do The Conversation cita também o contexto internacional da atual Copa do Mundo, realizada nos Estados Unidos em meio a conflitos envolvendo países participantes. Esses acontecimentos demonstram que o que ocorre fora dos estádios não desaparece quando a bola começa a rolar.
No caso de Argentina e Inglaterra, essa relação é particularmente intensa. A Guerra das Malvinas, o gol de mão de Maradona, a expulsão de Beckham e os cânticos das torcidas compõem uma narrativa que mistura esporte, ressentimento, nacionalismo e memória.
Darwin e a presença britânica na Argentina
O texto recupera ainda uma observação feita por Charles Darwin durante sua viagem a bordo do HMS Beagle. Ao atravessar o Rio da Prata, o naturalista britânico lamentou que a Espanha, e não o Império Britânico, tivesse colonizado a região.
“Como seria diferente o aspecto deste rio se os colonos ingleses, por boa sorte, tivessem sido os primeiros a navegar pelo Prata! Que nobres cidades ocupariam agora suas margens!”, escreveu Darwin.
A frase expressava a visão imperial predominante entre muitos britânicos do século XIX. Ao mesmo tempo, ajuda a compreender a profundidade histórica da presença inglesa na formação econômica e cultural da Argentina.
O artigo também menciona uma fotografia de 1981 na qual Maradona aparece ao lado de Freddie Mercury, vocalista da banda Queen. Na imagem, o jogador argentino veste uma camiseta com a bandeira britânica, enquanto Mercury usa uma camisa com as cores da Argentina.
Produzida apenas um ano antes da Guerra das Malvinas, a fotografia ganhou significado simbólico posteriormente. Ela representa uma relação feita simultaneamente de admiração cultural, intercâmbio, rivalidade e conflito.
Mais do que uma semifinal
Argentina e Inglaterra entrarão em campo com jogadores que se conhecem, dividem clubes e atuam nas mesmas competições. Do ponto de vista esportivo, será um duelo entre duas seleções talentosas em busca de uma vaga na final da Copa do Mundo.
Mas, para milhões de torcedores, a partida não começa no apito inicial nem termina depois dos 90 minutos. Ela carrega as invasões britânicas do início do século XIX, a ocupação das Malvinas em 1833, a guerra de 1982 e os confrontos memoráveis das Copas de 1986 e 1998.
Scaloni está correto ao afirmar que se trata de um jogo de futebol. Essa é a responsabilidade imediata dos atletas e das comissões técnicas. A história, no entanto, explica por que, para argentinos e ingleses, nunca é apenas isso.