O Desastre como oportunidade de conteúdo





Por Ricky Mascarenhas*

Em momentos de tragédia, a sociedade espera respostas rápidas, articulação institucional e ações concretas. Mas, em tempos de redes sociais, a linha que separa solidariedade de performance política parece cada vez mais tênue.

As fortes chuvas que atingiram municípios brasileiros nos últimos dias deixaram rastros de destruição, famílias desalojadas e cidades em estado de alerta. Em meio ao cenário de lama, perdas materiais e dor coletiva, multiplicaram-se também as visitas de lideranças políticas às áreas afetadas.

Entre elas, a presença do deputado federal Nikolas Ferreira gerou questionamentos nas redes sociais. Parte da população passou a indagar se a prioridade estava na articulação de soluções efetivas, como a busca por recursos emergenciais, fiscalização de ações governamentais e encaminhamento de demandas ou na produção de conteúdo digital.
A crítica não é nova nem exclusiva a um nome específico. Em um ambiente político cada vez mais pautado por engajamento, vídeos curtos e discursos inflamados frequentemente alcançam mais repercussão do que relatórios técnicos, reuniões institucionais ou articulações nos bastidores.

Especialistas em comunicação política apontam que a exposição pública faz parte da dinâmica contemporânea do mandato. No entanto, destacam que a atuação parlamentar exige resultados práticos, sobretudo em situações de calamidade. A população atingida por enchentes e deslizamentos demanda infraestrutura, assistência social, reconstrução e políticas públicas consistentes, medidas que raramente cabem em 60 segundos de vídeo.

A discussão que emerge desse cenário é mais ampla: qual o limite entre dar visibilidade a um problema e transformar a tragédia em palco? A presença de representantes eleitos em áreas afetadas pode ser legítima e necessária, mas o impacto real se mede na efetividade das ações subsequentes.

Em tempos de hiperexposição digital, talvez o maior desafio da política contemporânea seja reconectar imagem e resultado. Porque, no fim das contas, reconstrução exige mais do que narrativa, exige trabalho contínuo, articulação institucional e compromisso que ultrapasse o alcance das redes sociais.

* Jornalista, CEO do Grupo iPolítica de Comunicação
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