
Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília
Da redação
A violência praticada por parceiro íntimo é o quarto maior fator de risco para morte prematura e invalidez de mulheres entre 15 e 49 anos em todo o mundo, segundo estudo publicado neste mês na revista científica The Lancet. A violência sexual contra crianças aparece como a quinta principal ameaça à saúde feminina nessa faixa etária.
A pesquisa integra o mais recente relatório do Global Burden of Disease (GBD), com dados de 2023, e é a primeira a demonstrar que esses tipos de violência podem gerar maior perda de anos de vida saudável do que fatores tradicionalmente associados à saúde pública, como hipertensão ou tabagismo, quando se considera especificamente mulheres em idade reprodutiva.
De acordo com o levantamento conduzido por pesquisadores do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), da Universidade de Washington, a violência por parceiro íntimo (IPV, na sigla em inglês) e a violência sexual contra crianças (SVAC) ficam atrás apenas de sexo sem proteção, desnutrição infantil e materna e deficiência de ferro como principais fatores de risco para mulheres de 15 a 49 anos.
No panorama global, os fatores que mais impactam a saúde de homens e mulheres de todas as idades são pressão arterial sistólica elevada, poluição do ar, tabagismo, glicemia elevada, baixo peso ao nascer e gestação curta.
No Brasil, os dados do GBD indicam que a violência sexual na infância e a violência por parceiro íntimo ocupam o segundo e o terceiro lugar entre os principais fatores de risco para mulheres nessa faixa etária. O principal fator no país é a obesidade.
Segundo a autora principal do estudo, Luisa Sorio Flor, professora assistente do IHME, os resultados reforçam que a violência deve ser tratada como prioridade de saúde pública. “Esses achados desafiam a visão de que a SVAC e a IPV são apenas questões sociais ou de justiça criminal”, afirmou.
A análise associou a violência contra a mulher a desfechos como depressão, automutilação e HIV/Aids, além de feminicídio. Já a violência sexual contra crianças foi relacionada a 14 condições de saúde, incluindo transtornos mentais graves, como esquizofrenia e transtorno bipolar.
Em 2023, cerca de 145 mil mulheres com 15 anos ou mais morreram no mundo em decorrência da violência por parceiro íntimo. A principal causa dessas mortes foi o suicídio, responsável por cerca de 60 mil casos, número mais que o dobro dos feminicídios registrados no período.
Os pesquisadores defendem que o enfrentamento da violência deve ir além da segurança pública, com fortalecimento da prevenção e do acompanhamento de longo prazo das vítimas nos sistemas de saúde.