Delegada disse que deu 'bobeira' ao advogar em nome do PCC



"Dei bobeira" relatou a delegada recém empossada Layla Ayub à delegados da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo. A informação foi publicada pelo jornal o Estado de S. Paulo após um depoimento de mais de cinco horas de Layla nesta sexta-feira (16).


SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A delegada presa por suspeita de ter laços com o PCC disse ter dado "bobeira" por advogar em nome de um membro de facção no Pará mesmo ocupando cargo na Polícia Civil.


"Dei bobeira" relatou a delegada recém empossada Layla Ayub à delegados da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo. A informação foi publicada pelo jornal o Estado de S. Paulo após um depoimento de mais de cinco horas de Layla nesta sexta-feira (16).

Layla Ayub participou como advogada em uma audiência de custódia de um preso em Marabá, no interior do Pará. Contudo, ela advogou em favor do membro de uma facção enquanto já tinha tomado posse como delegada na capital paulista.

A delegada relatou que já havia entrado com pedido de cancelamento de sua inscrição na OAB. No entanto, como ainda não havia sido desligada da ordem paraense, decidiu atuar na audiência do faccionado, relatou.

Layla não disse ser inocente, segundo o jornal. Durante o seu interrogatório na Corregedoria, ela teria dito que "não errou sozinha", antes de ser encaminhada para o 6º DP (Cambuci), onde aguarda sua audiência de custódia.

A delegada acabou indiciada por exercício irregular da profissão, por integrar uma organização criminosa. Além disso, ela também é alvo de suspeitas de falsidade ideológica e associação para o tráfico.

Layla teria assumido a compra de uma padaria na zona leste de São Paulo. No valor de R$ 100 mil, o imóvel seria para lavar dinheiro do PCC.
JUIZ SE SURPREENDEU COM CASO

Magistrado descreveu atitude de Layla Ayub como "ousadia absurda" e "deboche" contra autoridades. Fernando Deroma de Mello atua como juiz na 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa Lavagem de Bens e Valores da capital, e, em sua decisão, manifestou surpresa com o fato de a suspeita ter levado o namorado, que seria do PCC, à sua posse.

Namorado de Layla é apontado como uma das lideranças do PCC na região Norte do país. Jardel Neto Pereira da Cruz, conhecido como Dedel, compareceu à posse dos delegados da Polícia Civil de São Paulo, na Academia de Polícia, em 19 de dezembro. Ele morava com a delegada em São Paulo enquanto estava em liberdade condicional e no período em que ela frequentava o curso de formação da carreira na Academia da Polícia.

Uma foto mostrou que Jardel esteve na posse de Layla como delegada em 19 de dezembro de 2025. Na imagem, os dois aparecem do lado de fora da academia, abraçados e com roupas formais.

"Se o fato já não fosse de extrema gravidade, poucas vezes vistas, causando surpresa até àqueles que laboram na Justiça Criminal há anos, se comprovado, demonstra uma ousadia absurda e um total deboche das autoridades públicas. Um suposto integrante do alto escalão do PCC, com condenações criminais, suspeito de ser responsável por possíveis atentados contra a vida de juízes e outros agentes da Segurança Pública, comparece à cerimônia de posse de sua companheira como Delegada de Polícia do Estado de São Paulo que, novamente, em tese, estaria atuando em conjunto com o crime organizado", afirmou Fernando Deroma.

Promotor do Ministério Público se referiu à presença de Jardel no evento como um "demonstrativo de audácia". "Ela é advogada, ciente de que ele está descumprindo o sistema de livramento condicional dele e ciente de que ele é um autodenominado membro da facção. Mesmo assim, leva ele na posse dela no Palácio dos Bandeirantes. Parece um deboche", afirmou à reportagem Carlos Gaya, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado).

Não há indícios de que a facção tenha investido e patrocinado a carreira da delegada. A principal hipótese é de que ela tenha sido cooptada a partir do contato com lideranças do PCC durante o exercício da advocacia, o que se aprofundou a partir do relacionamento com Dedel.

"Não parece que ela foi cooptada para ser delegada do PCC. Foi uma ação individual", disse Gaya.

Secretário de Segurança, Osvaldo Nico Gonçalves, disse que delegada não tinha comportamentos anteriores "que a desabonassem". No entanto, o delegado Nico Gonçalves explicou que os admitidos no concurso ficam em estágio probatório por três anos, podendo ser investigados
DEDEL JÁ NEGOU SER PARTE DA FACÇÃO

Namorado da delegada já negou, em depoimento, pertencer ao PCC. Em documentos obtidos pelo colunista Josmar Jozino, em 2021, Dedel disse que não era batizado na facção, e que apenas forneceu apoio à liderança regional do grupo em Roraima -estado em que residiu por 10 meses.

Última prisão de Jardel foi em 2023. Ele foi detido em Marabá, no interior paraense, mesma cidade em que a advogada Layla atuou. Contudo, ele passou a cumprir pena, também por tráfico, em liberdade.

Jardel tenta carreira como MC. Nas redes sociais, ele se apresenta como cantor e compositor. Sua mais recente faixa, intitulada "Senta", foi lançada no início de 2026. "Tá doida para sentar para os envolvidos, senta na ponta da MP40", narra trecho da composição. MP 40 é uma popular submetralhadora alemã.
A DELEGADA E O PCC

Delegada teria participado, em dezembro, de uma audiência de custódia no Pará como advogada de quatro criminosos. Os crimes pelos quais eles foram presos eram tráfico de drogas e associação criminosa.

Audiência foi realizada após a posse de Layla Lima Ayub como delegada, o que é proibido. Segundo o Estatuto da Advocacia, ocupantes de cargos públicos não podem exercer função de advogado, nem mesmo em causa própria.

Além do mandado de prisão temporária contra a mulher, a ação teve como alvo o namorado dela, que também foi preso. Sete mandados de busca e apreensão também teriam sido cumpridos nas cidades de São Paulo e de Marabá (PA).

"Mecanismos internos de controle" ajudaram polícia a descobrir delegada. O órgão informou que indícios de irregularidades foram identificados pela corregedoria, que tomou "todas as medidas cabíveis" em seguida.

Delegada foi empossada junto a outros 523 delegados de polícia do estado. Antes de assumir o cargo, ela atuou como policial no Espírito Santo e como consultora jurídica no Pará. Nas redes sociais, a mulher se apresentava como ex-advogada criminalista.
A reportagem tenta contato com a defesa da delegada. O espaço segue aberto para manifestação.

Layla é investigada por integrar organização criminosa e lavagem de capitais. Ela está presa temporariamente, com validade de 30 dias e possibilidade de prorrogação por mais 30 até a conclusão dos trabalhos.

Polícia tenta identificar todos os clientes de Layla para traçar as relações entre eles. "O companheiro também é cliente dela", esclareceu Luiz Fernando Bugiga, promotor do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado).
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