“Segunda onda” chinesa segue redesenhando mercado automotivo do Brasil



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Carlos Baumgarten

O mercado automotivo brasileiro está vivendo a sua transformação mais profunda em décadas com a chegada definitiva da chamada “segunda onda” de carros chineses no país. Diferente da primeira tentativa nos anos 2010, marcada por modelos compactos de plástico rígido que tentavam competir apenas pelo preço baixo, a ofensiva atual da China é focada em tecnologia de ponta, eletrificação e forte investimento local.
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As marcas chinesas entenderam que, para conquistar o brasileiro, precisavam oferecer carros altamente tecnológicos por preços extremamente competitivos, forçando as montadoras tradicionais americanas e europeias a correrem atrás do prejuízo – a exemplo da Volkswagen, que cobrou a União Europeia medidas para enfrentar a concorrência chinesa.

A Bahia é um dos epicentros dessa “revolução chinesa”. O fechamento da fábrica da Ford em Camaçari, em 2021, parecia decretar o fim de uma era para o estado. No entanto, o complexo não ficou abandonado por muito tempo. Ele foi escolhido pela BYD para ser a sua maior fortaleza industrial fora da Ásia, simbolizando a chegada definitiva da “segunda onda” de carros chineses no Brasil.

A BYD não veio ao Brasil apenas para importar veículos. Ela decidiu fincar raízes em solo baiano com um investimento colossal de R$ 5,5 bilhões para modernizar o polo de Camaçari.

Além disso, quem mora na Bahia conta com um forte incentivo fiscal local: o governo do estado garante isenção total de IPVA para carros 100% elétricos com valor de mercado de até R$ 300 mil. É de Camaçari que saem os três maiores sucessos comerciais da marca no país hoje: o compacto elétrico Dolphin Mini (na faixa de R$ 119.990) e os híbridos plug-in King (sedã, por R$ 169.900) e Song Pro (SUV, por R$ 189.800).
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A consolidação desse fenômeno não se resume apenas à BYD e à Bahia. O mercado brasileiro virou o principal campo de batalha de uma guerra comercial de gigantes asiáticos, desenhando um novo mapa industrial no país. Enquanto a BYD fincou sua principal bandeira no Nordeste, sua arquirrival direta, a GWM, respondeu na mesma moeda ao assumir a antiga fábrica da Mercedes-Benz em Iracemápolis, no interior de São Paulo.

Essa disputa coloca a linha baiana de híbridos e elétricos da BYD em rota de colisão direta com a família de SUVs Haval e o compacto Ora 03 da GWM. Para o Brasil, essa rivalidade geográfica representa uma vitória histórica: o país deixa de ser um mero importador de tecnologia e passa a centralizar o desenvolvimento e a montagem da mobilidade do futuro em dois dos seus maiores polos econômicos.


Guerra de preços e o impacto no mercado de usados

A invasão chinesa vem remodelando também o mercado de usados. Para quem tiver carro em bom estado de conservação, está sendo mais vantajoso manter o veículo. Comprar um novo pode gerar um prejuízo duplo.

A chegada e a expansão agressiva de novas montadoras forçaram cortes expressivos nos preços de tabela e campanhas de descontos generosos em fabricantes tradicionais como Volkswagen, Toyota, Fiat, Renault e Chevrolet.

Dados da consultoria Bright Consulting apontam que o preço médio efetivamente pago por veículos leves novos caiu de R$ 157,7 mil para R$ 152,1 mil em um período de 12 meses, o que representa redução real de 3,5%. O movimento foi impulsionado pela expansão de montadoras asiáticas focadas em elétricos e híbridos, o que obrigou fabricantes tradicionais a cortarem até R$ 55 mil nos preços de tabela e a adotarem bônus agressivos para segurar a clientela.

Como os estoques atuais foram adquiridos em períodos de preços inflacionados, as lojas de seminovos agora enfrentam o temor de prejuízos severos. Afinal, quando o carro zero-quilômetro fica mais barato, o modelo usado perde valor imediatamente. Diante do risco de rápida depreciação, que chega a -10,82% em 12 meses para alguns SUVs e elétricos, o setor opera com extrema cautela e crédito restrito.

Diante desse cenário, analistas avaliam que a melhor decisão para o consumidor atual é manter o carro atual, desde que ele esteja bem conservado. Tentar trocar de veículo neste momento pode significar uma armadilha financeira onde o motorista perde dinheiro na desvalorização forçada do seu usado e na depreciação acelerada do novo.
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