
Foto: Reprodução
Carlos Baumgarten
O ano de 1994 guarda na memória coletiva do brasileiro dois momentos opostos no mundo dos esportes: a alegria da conquista do tetra pela Seleção Brasileira na Copa do Mundo dos EUA e a tristeza pela trágica morte de Ayrton Senna no GP de San Marino. E para os fãs alemães de automobilismo, aquele foi o ano em que começava a surgir uma lenda.
É nesse recorte que o documentário “Schumacher 94 – Nasce uma lenda” se propõe a resgatar a história do maior piloto alemão da Fórmula 1. O filme da Netflix é o segundo a abordar a trajetória do heptacampeão, que sofreu um grave acidente em 2013 quando esquiava nos Alpes Franceses. Desde então, sua esposa Corinna, tem preservado a intimidade do marido, enquanto busca manter seu legado vivo.
A opção pelo recorte da temporada de 1994 traz muitas camadas. Naquele ano, Michael Schumacher ainda era um novato em ascensão que corria pela Benetton, uma equipe desacreditada na Fórmula 1, mas que buscava se colocar entre as maiores escuderias da principal categoria do automobilismo mundial (mesmo levando o nome de uma grife de roupas).
O novato já mostrava a que veio e a aposentadoria de medalhões como Alain Prost e Nigel Mansel deixava o espaço aberto para que, naquela temporada, surgisse uma rivalidade que se forjaria dentro de uma disputa de gigantes em momentos distintos de suas carreiras. O tricampeão Ayrton Senna fazia sua estreia na Williams, cujo pacote de atualizações apresentado na época demonstrava ser bastante promissor.
A morte de Senna sob outra perspectiva
Infelizmente, essa rivalidade não chegou a ser contemplada pelo público. Senna abandonou as duas primeiras etapas daquele ano, que incluía o GP do Brasil já na estreia da temporada. O trágico fim de semana do GP de San Marino – que incluiu ainda um grave acidente de Rubens Barrichello no treino livre e a morte do austríaco Roland Ratzenberger no treino classificatório – interrompeu de maneira abrupta o roteiro que se desenhava para aquele ano.
Notícias do Brasil
Perseguido justamente por Schumacher, Senna escapa e bate forte na curva Tamburello. Schumacher venceu a prova que – hoje sabemos – não deveria sequer ter sido completada, após a sequência de tragédias registradas ao longo de três dias. No documentário da Netflix, nós, brasileiros, podemos ver a tragédia do piloto brasileiro de outro ângulo.
O jovem Schumacher cogitou abandonar a carreira. Ele, ao lado de Senna e outros pilotos, defendia a não realização do GP de San Marino, sobretudo após a morte de Ratzenberger.
O peso daquele dia ficou marcado para sempre na Fórmula 1. Com a morte de Senna, a Williams promoveu o piloto de testes, David Couthard – que, em algumas etapas da temporada foi substituído pelo veterano Nigel Mansel. Damon Hill, então companheiro de Senna, assumiu a briga na disputa pelo campeonato. O resto é história.
O primeiro título
As polêmicas envolvendo a Benetton – como a desconfiança que partiu do próprio Senna sobre um suposto uso ilegal de controle de tração – e punições ao longo da temporada daquele ano elevaram a temperatura e a atmosfera de dramaticidade na disputa ponto a ponto pelo campeonato mundial, retratada no filme, obviamente, com o propósito de jogar luz sobre o talento do piloto alemão.
Schumacher – um admirador de Senna – conquistaria em 1994 o primeiro dos seus sete títulos. Sua história na Benetton – iniciada em 1991 e encerrada em 1996 – guarda ainda um segundo título conquistado no ano seguinte. Logo em seguida, o alemão assinaria com a Ferrari, e, após um hiato de quatro anos sem conquistar um título, marcaria a história da escuderia italiana e da Fórmula 1, entre 2000 e 2004, alcançando, de forma consecutiva, seus outros cinco títulos mundiais.
A Benetton seguiu no grid da Fórmula 1 até 2000, quando foi vendida para a Renault. Sem Schumacher, a equipe jamais viu outro campeonato mundial chegar às suas mãos. E sem Senna, a Fórmula 1 não pôde testemunhar uma possível grande rivalidade entre pilotos raros, que surgem uma vez a cada geração.