Em um país onde o voto é obrigatório para os cidadãos alfabetizados a partir dos 18 anos, segundo a Constituição Federal, compreender como funciona a democracia vai além de saber escolher um candidato. A formação para a cidadania começa bem antes da idade eleitoral e pode ser construída, desde a infância, a partir de experiências cotidianas de convivência, diálogo, respeito e participação.
Para a docente do curso de Direito da Estácio e mestre em Educação, Carina Artêncio, a educação política deve acompanhar o desenvolvimento de crianças e adolescentes, com conteúdos e atividades adequados a cada faixa etária. Na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, por exemplo, conceitos como regras de convivência, empatia, respeito ao próximo e decisões coletivas podem ser trabalhados em situações simples do dia a dia, como uma votação para escolher uma atividade ou um livro para a turma. Aos poucos, a criança passa a compreender, na prática, como funcionam as escolhas coletivas e por que opiniões diferentes também precisam ser respeitadas.
Nos anos finais do Ensino Fundamental, entram em discussão temas como direitos e deveres, funcionamento das instituições públicas e divisão dos Poderes. Grêmios estudantis e eleições simuladas podem transformar esses conceitos em experiências concretas. Já no Ensino Médio, o debate pode se aprofundar com o estudo dos sistemas eleitorais, partidos políticos, políticas públicas e participação popular, utilizando recursos como debates, júris simulados e análise de propostas de governo.
A proposta é desenvolver autonomia: “Iniciar a educação para a cidadania na infância solidifica valores fundamentais para a vida em comunidade”, destaca Carina. Segundo ela, o contato precoce com o diálogo, a negociação pacífica de conflitos e o respeito às regras coletivas contribui para a formação de pessoas mais conscientes de seus direitos e responsabilidades.
A escola deve trabalhar a partir da Constituição, do funcionamento do Estado Democrático de Direito e dos direitos fundamentais, sem transformar o espaço escolar em local de promoção de candidatos, partidos ou figuras políticas. Questões controversas podem ser apresentadas a partir de diferentes perspectivas, sempre com base em argumentos e informações, para que os próprios estudantes desenvolvam suas conclusões. Ao professor cabe mediar a discussão, estimular a argumentação e garantir um ambiente de respeito.
A importância desse preparo se torna ainda mais urgente diante da quantidade de informações políticas que circulam diariamente pelas redes sociais. Os jovens podem aprender a verificar a origem de uma informação, identificar autores, datas e veículos, confrontar dados com fontes oficiais e distinguir fatos de opiniões.
Famílias e educadores têm, portanto, um papel conjunto. Em vez de simplesmente proibir determinados conteúdos, a orientação pode partir do diálogo e de perguntas que estimulem a reflexão. “Mais do que preparar o indivíduo para o ato de votar, a educação política continuada estrutura a consciência cidadã para toda a vida”, afirma a especialista.
Assessoria Nacional: Voz Comunicação