O século XXI tinha tudo para extrair o máximo dos jovens e apontar para um futuro de novos pensadores, de uma juventude opinativa, crítica e capaz de transformar a sociedade em algo melhor. Doce engano!
O que temos visto, salvo raras exceções, é uma juventude com pouco pensamento crítico e um discurso cada vez mais raso. Vivemos hoje em uma época em que muitos jovens não leem, não ouvem, não se aprofundam nas informações e preferem conteúdos rápidos, superficiais e, muitas vezes, falsos, as tão conhecidas fake news.
Outro dia, ouvi alguns jovens falando sobre um “show maravilhoso”. Era assim que eles se referiam ao espetáculo musical que tinha como grandes atrações Gustavo Lima e Natanzinho. Apenas ouvi e ri silenciosamente, para não os deixar constrangidos. Naquele momento, voltei no tempo e me vi na minha juventude, quando tínhamos como ídolos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Elis Regina, Rita Lee e Belchior.
E não eram apenas os grandes nomes da música brasileira. Também acompanhávamos as bandas que surgiam e conquistavam o Brasil, como Barão Vermelho, Legião Urbana, RPM, Os Paralamas do Sucesso e Roupa Nova, entre outras bandas.
Nossa! Era muita coisa boa. Djavan, Milton Nascimento, Zé Ramalho, Alceu Valença, Fagner, Lulu Santos, Tim Maia, Kleiton & Kledir, Sá & Guarabyra, Beto Guedes, Guilherme Arantes... Eu poderia passar o resto do dia listando cantores e bandas que, diariamente, nos ofereciam boa música e, de alguma maneira, também nos davam referências, sentimentos, direcionamento e senso crítico.
Hoje, o que ouço, muitas vezes a contragosto (porque não tenho opção) são músicas e cantores extremamente ruins. Volto a dizer: toda regra tem exceção. Tenho buscado, principalmente na internet, músicos e trabalhos alternativos e, de vez em quando, conseguimos encontrar boas surpresas. É o caso do Projeto Dominguinhos, com João Gomes, JP e Mestrinho, Beradeiros, Tiago Iorc, Jão, Silva e o grande Seu Jorge.
O que me assusta é saber que ainda existem excelentes cantores, compositores e músicos no Brasil, mas grande parte dessa geração parece preferir o subproduto cultural, a música sem letra, melodia e muitas vezes e na maioria das vezes conteúdo.
Essa geração parece não querer pensar. Não quer sentir. Não quer descobrir. O que vale, em muitos casos, é a baixaria, a letra pobre, a repetição e a ausência de qualquer mensagem que possa provocar uma reflexão.
E o mais curioso (ou talvez o mais triste) é que, culturalmente falando, esses trabalhos mais pobres estão entre os mais caros do mercado fonográfico. Talvez o problema não esteja apenas na música que é produzida. Talvez esteja também no público que as ouve.
Uma sociedade que lê menos, pensa menos e questiona menos acaba aceitando qualquer coisa como cultura. E quando a mediocridade passa a ser consumida em larga escala, ela deixa de ser exceção e passa a ser regra.
No fim das contas, o empobrecimento cultural talvez seja apenas o reflexo de uma geração que, cada vez mais, foi ensinada a consumir tudo rapidamente, inclusive a música, a informação e o próprio pensamento.
Arnold Coelho
Precisamos voltar a pensar
