Dois pesos e duas medidas



Defendo há cerca de duas décadas, em Ibicaraí, a preservação do nosso corredor de montanhas, das nossas matas e das nascentes que ali existem e são protegidas pela cobertura vegetal. São mais de 110 nascentes que, a cada 24 horas, disponibilizam cerca de cinco milhões de litros de água - volume suficiente para abastecer o município por até 72 horas.
Toda essa água é captada, tratada e distribuída para milhares de moradias de Ibicaraí, entre sede e distritos. Nossa cidade fornece, em média, dez metros cúbicos (ou dez mil litros de água por mês) para cada residência. E cobra taxas que partem de R$ 15,00 nos quatro distritos e chegam próximo aos R$ 50,00 no centro da cidade.


Um preço relativamente baixo para tanta água.


Se compararmos, por exemplo, com a cidade vizinha de Floresta Azul, que disponibiliza cerca de seis mil litros por mês, ou com a grande São Paulo, onde a média gira em torno de três mil litros mensais (e o que ultrapassa esse volume gera taxa extra) percebemos o quanto pagamos pouco. Mas por que estou falando de água e usando Ibicaraí como exemplo?
Simples: a água é um bem comum. Não compramos a água que chega à nossa torneira; pagamos apenas pela captação, tratamento, insumos, serviço (mão de obra) e distribuição. E tudo isso tem um custo elevado. Por isso defendo que pagamos pouco pela água que consumimos, e corremos o risco, por falta de investimentos na autarquia e pela ausência do Pagamento por Serviço Ambiental (PSA), de sofrer, em um futuro breve, com a falta de água nas torneiras.


Já participei de inúmeros debates sobre o tema e sempre encontro pessoas que consideram alto o valor pago mensalmente pelo líquido precioso e pelo serviço oferecido pela autarquia.
Ontem, terça-feira, 10 de fevereiro, passando pela rodoviária de Itabuna eu precisei comprar uma garrafinha de 500 ml de água por R$ 3,00. Em momento algum reclamei. Simplesmente pedi, paguei, recebi minha água e fui embora. Outras pessoas fizeram o mesmo.


Resolvi então fazer um cálculo simples.


Se uma garrafinha com 500 ml custa R$ 3,00, um litro custa R$ 6,00. Multiplicando por mil litros, chegamos ao valor de R$ 6.000,00. E se multiplicarmos por dez (afinal, recebemos mensalmente 10 mil litros de água) o valor seria de R$ 60.000,00 (sessenta mil reais) por mês.
Seria esse super valor que eu pagaria caso resolvesse “mudar de fornecedor” de água. Um valor infinitamente superior aos pouco mais de R$ 40,00 que pago mensalmente.


A pergunta que fica é: por que reclamamos tanto do valor da água barata que cai na nossa torneira e não reclamamos da água supercara vendida nos bares, lanchonetes, shoppings, mercados e rodoviárias?
A água é um bem comum. É essencial à vida e à sobrevivência humana. Como iremos cuidar das nossas nascentes, que nos fornecem água diariamente, se consideramos cara uma taxa irrisória cobrada para manter a captação e o sistema funcionando?
Precisamos sair do discurso raso e avançar para uma discussão mais ampla. É necessário pensar em uma cobrança adicional destinada a investimentos na autarquia; implementar o Pagamento por Serviço Ambiental (PSA), remunerando o dono da terra (o verdadeiro “agricultor de água”) para que proteja e conserve as nascentes; criar mecanismos de fiscalização, com guardas ambientais que monitorem cada nascente e denunciem desmatamentos; buscar investimentos na esfera estadual e federal e instituir um conselho municipal que acompanhe, mensalmente, a arrecadação e a aplicação dos recursos captados.


Ou priorizamos esse tema agora, ou, em um breve futuro, estaremos importando água de outros municípios a preços surreais. Precisamos cuidar e valorizar a água que “ainda” temos no nosso município.


Arnold Coelho
Precisamos cuidar da nossa água
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