Entre o azul do céu e o sal do mar, Arembepe amanheceu em estado de fé. Nesta segunda-feira (2), a localidade da orla de Camaçari foi tomada por emoção, devoção e respeito às raízes ancestrais para celebrar Yemanjá, rainha das águas, “mãe de todas as cabeças”, força sagrada que está intimamente ligada à identidade cultural do povo baiano.
Logo nas primeiras horas do dia, mesmo antes do sol raiar no céu, a alvorada de fogos anunciou a abertura dos festejos. A ginga e batuques dos grupos de capoeira Abolição, Kirubê e Inzo recepcionaram o público, reforçando a riqueza das raízes afro-brasileiras.
Com trajes em maioria nos tons de branco e azul, moradores, turistas e autoridades se reuniram para render honrarias à grande mãe dos orixás, consagrada pelas religiões de matriz africana. As orações silenciosas e os cânticos cheios de axé deram o tom de uma celebração que une fé, cultura e tradição.
Integrante da comissão organizadora, para Rosana Almeida, a festa de Yemanjá de Arembepe está intimamente ligada à própria história, já que a tia, Dona Lindaura, foi a percussora da tradição.
“Esse ano, o evento completa 54 anos. Tenho 51, então bem pequena, ainda criança, sempre participei da entrega do presente. A partir da adolescência, minha tia Lindaura passou a me ensinar algumas coisas, eu saía com ela pra comprar flores, recebia as pessoas na casa dela. Por volta dos meus 20 anos foi quando, de fato, eu passei a participar mais diretamente na organização. Em 2015 ela fez um pedido pra mim e pra minha prima, de que se ela partisse, que a gente desse continuidade à tradição. Pra nossa tristeza, naquele mesmo ano ela desencarnou, e aí em 2016 a gente juntou um grupo de amigos, da família, pescadores, algumas pessoas da comunidade, e demos continuidade. E hoje, em 2026, continuamos perpetuando esse legado”, rememorou Rosana.
Ao som da Charanga Status, o cortejo partiu do espaço da Preguiçosa, ao fundo da Colônia de Pescadores Z-14. A procissão seguiu até a praia levando os balaios repletos de oferendas preparadas com zelo. Flores, pedidos e agradecimentos foram entregues aos barcos, que seguiram mar adentro para ofertar os presentes à rainha dos mares, em um ritual que renova promessas e reafirma laços profundos com o sagrado.






