Câmara de Ilhéus cria em parceria com a sociedade organizada o Comitê Permanente de prevenção à depressão e ao suicídio




A criação do Comitê Permanente de prevenção à depressão e ao suicídio foi o ponto alto da Audiência Pública realizada hoje (30) à tarde pela Câmara de Vereadores de Ilhéus, que marcou o encerramento do “Setembro Amarelo” em Ilhéus. Criado para fomentar políticas públicas de prevenção ao suicídio, o comitê é destinado as atender às pessoas de baixa renda, especialmente aos jovens matriculados nas escolas públicas municipais e estaduais. A iniciativa terá a participação do Poder Legislativo, sociedade civil organizada e Faculdade de Ilhéus, fortalecendo a rede de proteção à vida. “A gente pensa campanhas como forma de apagar incêndios. Tem mesmo que haver debate e políticas públicas permanentes de prevenção”, afirma a professora Rozemere de Souza, doutora em Enfermagem Psiquiátrica e docente da UESC. “Não podemos perder a perspectiva de uma rede de cuidados”, completou.

Presente à audiência, o médico psiquiatra Gentil Neto era a imagem da realidade que ganhou contornos preocupantes durante a pandemia. Ele atende, em média, 50 pacientes – oriundos do SUS e ou particular – com quadros depressivos ou ansiosos por dia em Ilhéus. “Nem os profissionais estão aguentando mais”, reconheceu. Hoje, por exemplo, dia do encerramento da campanha nacional, ele atendeu a 10 novas tentativas de suicídio e, ao sair da audiência, ia acompanhar três outros pacientes que se recuperam na rede hospitalar. “É preciso pensar em investimento à saúde mental, gerar movimento de políticas públicas. Nenhum de nós pode afirmar que nunca vai precisar de um serviço de saúde mental”, reforçou a professora Rozemere de Souza. Nas últimas 24 horas, Ilhéus registrou três suicídios. “Os índices estão imensos. Vamos precisar de mais profissionais, mais capacitação e mais acolhimento”, reconheceu doutor Gentil.



Vereador Gurita.

Proposta pelo vereador Alzimário Belmonte, o Gurita (PSD), a audiência pública reuniu profissionais de saúde, representação da educação e de assistência social. Dentre os presentes, o secretário municipal da Saúde, médico cardiologista André Cezário, destacou que é preciso estruturar a rede e atuar em parceria com outras secretarias, com diversos atores diferentes que possam detectar o problema de forma precoce. “As ações conjuntas precisam encontrar formas de intervenções para que o paciente possa chegar ao consultório, mas não na fase grave de surto psicótico”.

“Ainda existe um tabu relacionado ao suicídio e transtornos mentais”, reconhece a psicóloga parental, Deuzimeire Herculano. “É preciso procurar ajuda, tratamento, outra saída que não seja tirar a sua própria vida”, completou. Professor da Faculdade de Ilhéus, o psicólogo Marcos Aurélio Rocha alerta para o fato de que ainda há a visão de quem busca psicologia ou psiquiatria seja um louco. Com o crescimento significativo de casos entre os jovens, o professor defende que a escola passe a ter um papel significativo para a redução de mortes. “A escola em geral reproduz grandes pensadores. Mas ela pode oferecer espaço de uma educação para as nossas emoções. E expressá-las”, disse. “Podemos e devemos oferecer cidadãos pensantes e atuantes na sociedade. Mas e as nossas emoções como ficam?”, questionou.

O comitê criado na tarde de hoje terá a sua primeira reunião no dia 14 de outubro, às 9 horas, na sede do Palácio Teodolindo Ferreira. As reuniões serão mensais. Dados oficiais revelam que são registrados mais de 13 mil suicídios todos os anos no Brasil e mais de um milhão no mundo. Trata-se de uma triste realidade, que registra cada vez mais casos, principalmente entre os jovens. Cerca de 96,8% dos casos de suicídio estão relacionados a transtornos mentais. Em primeiro lugar está a depressão, seguida do transtorno bipolar e abuso de substâncias.
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