Ex-'noiva do Estado Islâmico' diz que pode ajudar contra terrorismo no Reino Unido






BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - Shamima Begum, 22, ex-cidadã britânica que aos 15 anos fugiu para a Síria e se casou com um combatente holandês do Estado Islâmico, pediu ao governo do Reino Unido que não a deixe apodrecer no campo de prisioneiros em que vive desde 2019.





Ela afirmou que pode ser útil no combate contra o terrorismo do governo britânico, por conhecer as táticas do grupo jihadista para recrutar combatentes, e se ofereceu para trabalhar na prevenção à radicalização.


As declarações foram dadas em entrevista ao vivo nesta quarta (16) à emissora ITV, na qual Shamima aparece de rosto descoberto, cabelos longos soltos, batom cor de rosa, boné e camiseta regata, sem o chador negro que a cobria da cabeça aos pés dois anos antes, em outra entrevista para a BBC.


Ela faz parte de um grupo que ficou conhecido na Europa como "noivas do Estado Islâmico" -mulheres cooptadas para se unir ao grupo terrorista, a maioria delas durante a adolescência e sob falsas promessas de boas condições de vida.


Histórias como a dela foram recontadas em séries como "Califado", da Netflix, e filmes como "Layla M." e "Heaven Will Wait" (o paraíso vai esperar, sem tradução no Brasil), entre outros.


Como outras garotas europeias em sua situação, Shamima tentou voltar a seu país de origem após o desmantelamento da organização jihadista, mesmo sabendo que enfrentaria um julgamento por traição –o Estado Islâmico assumiu vários atentados terroristas que deixaram mortos em países europeus.


O governo britânico, porém, tirou sua cidadania e negou seu pedido em 2019. Em fevereiro deste ano, a Suprema Corte britânica negou recurso em que ela pedia para retornar a seu país natal. À emissora BBC, Shamima havia afirmado estar arrependida de ter deixado o Reino Unido.


Na entrevista que foi ao ar nesta quarta (15), Shamima diz que nunca teve a intenção de praticar terrorismo e acreditava que apenas poderia viver dentro de uma comunidade muçulmana. "Só queria me casar, ter filhos e viver uma vida de islamismo puro."




Segundo ela, as pessoas que a convenceram a ir para a Síria lhe deram informações falsas. A moça disse que não participou de ataques, mas pedia desculpa aos britânicos por ter se juntado a um grupo que provocou a perda de muitas vidas –entre elas os 22 mortos de um atentado em Manchester, durante show da cantora Ariana Grande, em 2017.


Questionada sobre declarações em entrevista de 2019, em que ela defendeu o grupo jihadista, ela afirmou que estava arrependida e que desconhecia os atentados terroristas: "Do fundo do meu coração, sinto muito. Não sabia o que o Estado Islâmico havia feito em outras partes do mundo".


Shamima, cuja família tem origem em Bangladesh, teve três filhos na Síria –nenhum sobreviveu. Foi capturada pelos curdos em 2019 em Baghuz, às margens do rio Eufrates, e enviada ao campo de Al-Hol, um dos maiores da região.


Descoberta por jornalistas, ela afirmou que queria voltar ao Reino Unido, atraindo atenção internacional e hostilidade de parte das 12 mil estrangeiras detidas no local.


Foi transferida para o campo Roj, perto da fronteira com o Iraque, quando seu terceiro filho morreu de pneumonia, com três semanas de vida.


Nesta quarta, Shamima afirmou que agora se sente mais à vontade para expressar suas críticas ao Estado Islâmico, porque neste campo corre menos perigo, e que acha importante falar para que outras garotas não cometam os mesmos erros que ela.




"Ninguém pode me odiar mais do que eu me odeio pelo que fiz, e tudo o que posso dizer é 'sinto muito' e apenas me dê uma segunda chance", disse a estudante, que quer voltar ao Reino Unido para se defender pessoalmente.


"Estou disposta a ir ao tribunal e refutar as alegações de terrorismo, porque eu sei que não fiz nada no Estado IslâmicoS além de ser mãe e esposa", disse ela.


No total, estima-se que cerca de 900 britânicos se juntaram ao Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Mais ou menos a metade voltou ao Reino Unido, mas, de acordo com entidades de direitos humanos, 9 homens, 16 mulheres e 35 crianças ainda estão na Síria, com outros 60 mil parentes de membros do Estado Islâmico presos.


Além das britânicas, estão nos campos de prisioneiros mais de 200 mulheres de dez países europeus, e a discussão sobre o destino das viúvas ou mulheres de combatentes islâmicos ocorre em vários outros países europeus, como Irlanda, Bélgica, Holanda, Alemanha, Noruega, Dinamarca e Finlândia.


Em maio, o governo dinamarquês mudou de ideia e decidiu repatriar algumas de suas cidadãs, após alerta da agência de inteligência, segundo a qual riscos de radicalização cresceriam no futuro, caso as crianças recebessem treinamento terrorista.


Segundo o relatório, mais da metade dos 19 filhos de "noivas do EI" dinamarquesas está no início da adolescência, faixa etária considerada vulnerável à doutrinação extremista. Organizações humanitárias têm alertado para a superlotação e as más condições nos campos de Roj e al-Hol, sob domínio curdo, no norte e nordeste da Síria, e relatos de tentativa de fuga têm crescido.


Em março, órgãos de informação afirmaram que os curdos estavam perdendo o controle do campo de al-Hol, que abriga mais de 64 mil pessoas. Em Roj estão cerca de 2.000 refugiados.
Neste ano, uma norueguesa de 30 anos que se casou com três diferentes membros do Estado Islâmico entre 2013 e 2019, na Síria, foi condenada a 3,5 anos de cadeia após ser repatriada do campo de al-Hol.


No final do ano passado os governos alemão e finlandês afirmaram ter repatriado 18 crianças e cinco mulheres dos campos de refugiados. Um tribunal de Bruxelas também ordenou que o governo belga ajudasse a repatriar dez crianças nascidas na Síria, filhas de belgas que lutaram pelo Estado Islâmico.


No início de março, a Bélgica anunciou que tentaria trazer cerca de 30 crianças dos campos de refugiados e algumas de suas mães.
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