Delta e baixa vacinação fazem Covid disparar no Sudeste Asiático




"Exemplo de sucesso", "fenômeno" e "modelo para o mundo". Assim o Vietnã foi descrito em estudos e reportagens que relatavam o triunfo do país de 100 milhões de habitantes contra a Covid-19. Até maio deste ano, o Vietnã tinha registrado só 35 mortes pela pandemia, todas elas concentradas em pouco mais de um mês no ano passado.

O cenário, no entanto, mudou. Embora registre apenas 1.161 mortes por Covid-19 até o sábado (31), o número de vítimas da doença explodiu em julho, a ponto de em um único dia, a última quinta (29), o Vietnã contar 392 óbitos.

O caso do Vietnã é emblemático do que vem enfrentando o Sudeste Asiático, região que conseguiu controlar o avanço do coronavírus ao longo de mais de um ano, mas que tem visto seus sistemas colapsarem em um momento em que as nações mais ricas do mundo avistam o outro lado do túnel da pandemia.

É na região, por exemplo, que está o país com a maior quantidade de mortes diárias pela doença atualmente, a Indonésia. Só na última terça (27), o país registrou 2.069 mortes pela doença. Para se ter uma ideia, isso é quase 7 vezes as cerca de 300 mortes por dia que o país registrava entre o fim de janeiro e o começo de fevereiro, no que havia sido até agora o pico da doença.

Uma combinação de três fatores explica a explosão de casos e mortes no Sudeste Asiático, na avaliação do epidemiologista indonésio Dickie Budiman, pesquisador da Griffith University, na Austrália.

O primeiro é o que vem preocupando o mundo todo, o avanço da variante delta, que só na Indonésia corresponde a 93% dos casos. A mutação não é só mais contagiosa como também tem derrubado a eficácia das vacinas em aplicação, ainda que elas continuem eficientes para prevenir mortes e hospitalização.

Há discussões defendendo por exemplo que a Coronavac, vacina largamente usada na região, tenha uma terceira dose para a população em geral, de reforço. Trabalhadores da área da saúde já estão recebendo um reforço de outra fabricante, a Moderna, depois que o país registrou a morte de vacinados, e a medida pode ser estendida para o restante da população.

Mas aumentar o número de doses deve dificultar ainda mais o controle da pandemia no Sudeste Asiático, já que outro fator que explica o colapso da região é a baixa oferta de vacinas, afirma Budiman.

Indonésia e Filipinas, os países mais populosos da região, não atingiram 8% da população vacinada completamente. No Vietnã, com seus quase 100 milhões de habitantes, a taxa de pessoas completamente imunizadas é de 0,6%. Em termos de comparação, o Brasil se aproxima dos 20% da população total completamente imunizada.

A baixa capacidade de testagem é o terceiro motivo elencado pelo epidemiologista para explicar a explosão de Covid-19 no Sudeste Asiático.

"Infelizmente, antes mesmo do avanço da variante delta, as condições já eram ruins, com poucas vacinas e testagem baixa.

Agora a situação é ainda pior, com os hospitais lotados", diz Budiman. Ele reforça que o baixo índice de imunização se dá pela falta de disponibilidade de vacinas. "Não existe um sentimento anti-vacina expressivo, as pessoas estão ansiosas para se vacinar, isso é uma boa notícia, mas o desafio é conseguir imunizantes para milhões e milhões de pessoas", completa ele.

A explosão da Covid na região atraiu atenção internacional, já que a falta de controle da doença é o caldo ideal para o surgimento de mutações que podem burlar as vacinas.

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, se reunirá por cinco dias na próxima semana com os ministros de relações exteriores de dez países do Sudeste Asiático, e terá na pauta, entre outras coisas, a doação de vacinas para a região –23 milhões de doses foram doadas. Além disso, a vice-presidente do país, Kamala Harris, visitará Vietnã e Singapura em agosto.

Os americanos têm especial interesse em fortalecer sua imagem na região como uma forma de conter o avanço da China. É no Sudeste Asiático que fica um dos maiores desafios geopolíticos do mundo hoje, a questão do Mar do Sul da China –Pequim reivindica o controle da região, o que é contestado por outras nações.

Além dos americanos, o Reino Unido recorreu ao Conselho de Segurança da ONU na última quinta para alertar para a situação de Mianmar, clamando por um cessar-fogo para garantir a vacinação. Isso porque, além de lutar contra o vírus, a população do país de 54 milhões de pessoas foi surpreendida por um golpe de Estado em fevereiro, que instalou um governo militar.

Uma parcela reagiu e, segundo a associação de assistência a presos políticos do país, 940 pessoas já foram mortas pelo novo regime.

Mas o caso que mais tem preocupado o planeta é a da Indonésia, hoje epicentro da doença, que tem recebido doações de vacinas, oxigênio e outros suprimentos para conter a doença no país de 270 milhões de habitantes.

Apesar do número de casos e de mortes continuar crescendo, o governo começou a aliviar restrições, e permitiu na última semana a reabertura de pequenos comércios, mercados tradicionais, shoppings centers e restaurantes com área externa.

Por outro lado, Singapura é a principal exceção da região. Apesar da concentração de gente (é o segundo país mais denso do mundo), o controle da doença é mais fácil na cidade-estado insular do que em outros locais como a Indonésia, cujo território é dividido por mais de 17 mil ilhas.

Embora Singapura tenha registrado um aumento recente de casos, à medida que a variante delta avança por toda a região, o número de confirmações diárias da doença é hoje cerca de 15% do que foi no pico de abril do ano passado. Até agora, só 37 pessoas morreram no país de quase 6 milhões de habitantes. É que lá 55% da população já está completamente imunizada contra a Covid-19 e 73% recebeu ao menos uma dose.
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