Com 1,6% vacinado contra a Covid, África luta para obter doses




Enquanto o avanço da vacinação é motivo de celebração em diversos países da Europa e da América do Norte, os da África continuam a lutar por doses para imunizar pelo menos sua população mais vulnerável.



Com cerca de 17% da população mundial, o continente responde por apenas 1,6% dos 4,01 bilhões de doses aplicadas no globo. E ao passo que os europeus já são cerca de 38% completamente imunizados, os africanos são apenas 1,6% —e com um registro de 166,5 mil mortes e 6,6 milhões de infecções, números considerados longe da realidade devido à subnotificação.


Segundo especialistas, principalmente três motivos explicam tamanha diferença: dependência de empresas fora do continente para desenvolvimento de vacinas; problemas logísticos para assegurar a distribuição das doses após a chegada delas; e hesitação com relação aos imunizantes.


De acordo com Benjamin Kagina, pesquisador da iniciativa Vacinas para África, ligada à Universidade de Cape Town, a demanda por vacinas no continente, sem incluir aquelas contra a Covid, é de cerca de 1 bilhão de doses por ano, mas apenas 1% desse montante vem de fabricantes locais.


Além disso, os países com renda maior conseguiram garantir as doses antes mesmo do desenvolvimento dos imunizantes, o que colocou a África no fim da fila, explica Mia Malan, editora-chefe do Centro Bhekisisa para Jornalismo de Saúde, uma organização sul-africana de mídia independente que tem acompanhado a situação da Covid na região. “A pandemia tem sido como um espelho que mostra como o mundo realmente é”, avalia sobre a desequilibrada corrida.


A questão se agrava ainda mais no continente, já que a desigualdade interna também é grande, ressalta Malan. A África do Sul, por exemplo, possui condições de fechar acordos com as fabricantes tanto para a compra como para a produção dos imunizantes —a partir do ano que vem, a Biovac irá começar a envasar doses da Pfizer/BioNTech.


Ainda assim, o país enfrenta problemas para avançar sua imunização, com 9,4% que receberam ao menos a primeira dose, e 4,3%, as duas. As vacinas da Pfizer só começaram a ser aplicadas em abril, lembra a editora do Bhekisisa, pois quando o governo procurou a farmacêutica em dezembro, já não havia mais doses disponíveis. “Isso significa que os imunizantes que recebemos chegam em lotes menores, porque foi tudo o que restou para nós”, afirma Malan.


Outro forte impacto foi o atraso da entrega de um dos insumos para a produção do imunizante da Johnson&Johnson, o que levou à destruição das doses que haviam sido produzidas no país. “Ainda que isso tenha acontecido em países mais ricos, o impacto não foi nem de perto tão grande porque eles têm outras vacinas já compradas”, explica a editora. “Na África do Sul, não tínhamos mais nada, tivemos que adquirir outras doses.”


Muitos países no continente, no entanto, encontram-se em situação ainda pior, pois não possuem condições para fazer acordos de produção ou mesmo de compra. Isso ajuda a explicar por que há casos como o de Seychelles, que já imunizou completamente 69,7% de sua população (ainda que haja uma alta de casos sendo investigada pela OMS), e o da Tanzânia, que vacinou seu primeiro habitante há duas semanas, ou o de Burundi e Eritreia, que nem sequer começaram a inocular suas populações.


A dificuldade em obter acordos faz ainda com que os países dependam completamente das vacinas fornecidas pelo Covax, iniciativa vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS) para a distribuição de imunizantes a nações em desenvolvimento.


Esperava-se que o consórcio conseguisse mitigar a desigualdade global da vacinação, mas esse tipo de iniciativa seria inevitavelmente insuficiente, já que países mais ricos iriam priorizar sua população antes daqueles com rendas menores, avalia Osman Dar, diretor do projeto Uma Saúde, que faz parte do Programa de Saúde Global da Chatham House, um think tank britânico. “Depender da benevolência ou da solidariedade desses países não deveria ser a base de um sistema global de distribuição de vacinas”, afirma.


Kagina, da Universidade de Cape Town, acrescenta ainda que, se a situação fosse inversa e a África liderasse a aplicação de imunizantes, ele não gostaria que seu filho não fosse vacinado porque o governo de seu país decidiu enviar doses para nações em defasagem. “É da natureza humana que você trabalhe duro para colocar sua casa em ordem”, defende. O pesquisador pontua, por outro lado, que o problema maior é ter países com excesso —o Canadá, por exemplo, tem dez doses por pessoa— enquanto outros estão em falta.


Na África, 63,8 milhões de doses já foram aplicadas —somadas as do consórcio da OMS e de outras iniciativas— e outros 60 milhões estão previstos para chegar nas próximas semanas por meio do Covax, com doações de EUA, Europa e Reino Unido. No total, cerca de 500 milhões de imunizantes devem ser fornecidos pela iniciativa, o que é insuficiente para uma população de quase 1,4 bilhão.


Além de um número que já é insuficiente, o sistema de distribuição foi impactado pela suspensão da exportação de vacinas determinada pela Índia, que precisou das doses para fazer frente a uma devastadora onda da doença. Como a maioria dos imunizantes do Covax eram fornecidos por uma instituição do país asiático, houve atraso na entrega.


Isso atrapalhou ainda mais a logística de distribuição e aplicação dos países africanos, que já é deficiente. Uma vez que as doses chegam, há dificuldades para armazenamento, transporte e mesmo aplicação.


Segundo números apresentados pela diretora da OMS para a África, Matshidiso Moeti, em uma entrevista coletiva na última semana, uma pesquisa sobre o quão preparado estão os 55 países da União Africana (inclui-se a República Árabe Saharaui Democrática, que reivindica o território do Saara Ocidental) mostrou que 30% deles têm mais da metade de seus distritos com dificuldades de armazenamento a frio.


Osman Dar pontua que há ainda a falta de sistemas de registro apropriados para identificar e localizar grupos prioritários e de profissionais treinados para apoiar a entrega em massa.


Para engrossar o caldo, a hesitação em se vacinar é outra preocupação. Um estudo publicado em março deste ano pelo Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) da África apontou que 79% da população dos 55 países da União Africana estava disposta a se imunizar. As variações internas, por outro lado, são grandes. Enquanto na Etiópia esse número sobe para 94%, ele cai para 59% na República Democrática do Congo.


Para Kagina, no entanto, isso não deveria ser uma grande preocupação, devido ao acesso ainda limitado às doses. “Você não se torna hesitante a algo que você não tem.”


Boa parte dos motivos que levaram a essa desigualdade, porém, poderia ter sido evitada, e os governos dos países africanos não estão isentos de culpa, analisa Evelyn Gitau, diretora interina de Pesquisa no Centro de Pesquisa de População e Saúde da África. “Muitos deles demoraram a se envolver nas iniciativas oferecidas para a aquisição de vacinas, como o Covax”, explica. “Como resultado, estão lutando por doses limitadas, já que o restante foi para os países que haviam se inscrito.”


Ela também destaca que muitos dos problemas ligados à distribuição eram facilmente evitáveis, com destinação de verbas para comprar seringas e pagamento por equipamentos de proteção e recursos humanos para aplicação de vacinas e garantia de treinamento de profissionais para estarem preparados uma vez que as doses chegassem. Além disso, ter sistemas atualizados para monitorar vacinados e questões logísticas, como armazenamento e datas de validade, ajudariam a evitar a situação.


Essa lentidão no ritmo de imunização se torna uma preocupação ainda maior em meio ao surgimento de variantes mais transmissíveis. “Não se iludam, a terceira onda na África não acabou”, alertou a diretora regional da OMS. “Este pequeno passo em frente oferece esperança e inspiração, mas não deve mascarar o panorama geral. Muitos países ainda estão em risco de pico, e a terceira onda da África cresceu mais rápido e é mais forte do que nunca.”


A variante delta, identificada na Índia e que tem gerado fortes altas na Europa e nos EUA por ser mais contagiosa, já foi encontrada em 26 países do continente. Já a alfa (Reino Unido) e a beta (África do Sul) foram registradas em 35 nações.


Malan, do Bhekisisa, ressalta que, sem acesso às vacinas, os países africanos têm ondas maiores e mais consistentes da doença —e com mortes que poderiam ter sido evitadas se a população estivesse mais imunizada.


Por isso, a aceleração da vacinação a partir do aprendizado dos desafios enfrentados até agora é tão importante, disse Moeti, da OMS. A expectativa era a de imunizar 20% da população até o fim do ano, o que parece uma meta distante neste momento. Para alcançar 10% até o fim de setembro, será preciso aumentar em cinco ou seis vezes o ritmo, pontuou a diretora.


No passo atual, 70% dos países não irão chegar a essa taxa —entre 3,5 milhões e 4 milhões de doses são aplicadas por semana no continente, número que precisaria ser de 21 milhões para atingir a meta. “Para acelerar o ritmo, é preciso melhorar operações, investimentos em custos operacionais e focar a confiança na vacina”, destacou Moeti, acrescentando que a organização tem auxiliado os países no microplanejamento.


Essa aceleração está intrinsecamente ligada à chegada de mais doses, um cenário que é cheio de incertezas. Alguns países, por exemplo, já falam em reforçar a imunização com uma terceira dose para enfrentar a alta de casos, desequilibrando ainda mais a disponibilidade de vacinas.


Especialistas, por sua vez, reforçam que a necessidade de proteger os africanos contra a Covid não é uma questão apenas de importância regional. “Se deixarmos o continente sem ser vacinado, estamos também aumentando o risco de gerar mais variantes, e ninguém pode prever o que a próxima cepa vai fazer até mesmo com quem já foi imunizado”, ressalta Kagina, da Universidade de Cape Town. “Vemos os EUA doando vacinas porque eles entendem que o continente, sem ser imunizado, representa uma ameaça para o restante da comunidade global.”

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