Após terremoto, tempestade tropical severa se aproxima do Haiti




Enquanto ainda mensura as perdas humanas e materiais do terremoto do último sábado (14), o Haiti se prepara para receber, no início desta semana, a tempestade tropical Grace, comum nesta época do ano, mas com potencial agravante para o país caribenho.



Formada no Atlântico, a tempestade severa pode chegar a ventos de 100 a 120 km/h, e seu núcleo deve passar por cima do território haitiano na noite desta segunda (16) ou na terça-feira, segundo previsões meteorológicas.


A agência nacional de proteção civil do Haiti anunciou que a tempestade já se aproximava do arquipélago das Antilhas no sábado e pediu que a população fique atenta às recomendações das autoridades. O país emitiu alerta laranja de tempestade (risco alto), e o Serviço Marítimo e de Navegação proibiu o transporte marítimo de cargas e pediu que a população que reside no litoral vá para outro local.


A vizinha República Dominicana, que divide a ilha de Hispaniola com o Haiti, emitiu alerta para as costas sul e norte, onde são esperadas fortes chuvas, ventos, inundações e deslizamentos de terra.


De acordo com Leonardo Calvetti, chefe do Centro de Previsões e Pesquisas Meteorológicas da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel), a tempestade preocupa não por sua dimensão, mas pela forte vulnerabilidade que vive o Haiti. “Com muitas estruturas perto de cair e hospitais lotados devido ao terremoto, é difícil comportar ventos dessa intensidade.”


Os esforços de resgate das vítimas também devem se tornar mais complicados com a tempestade Grace. Segundo o balanço mais atualizado, 1.297 pessoas morreram, 5.700 ficaram feridas e 13.785 casas foram danificadas no terremoto de magnitude 7,2 —maior que o de 2010, de magnitude 7.


A parte sudoeste da ilha de Hispaniola foi a mais afetada. Foram registradas 1.054 mortes no departamento haitiano do Sul, 122 em Nippes, 119 em Grand-Anse e 2 no Noroeste. É exatamente por eles que a tempestade Grace deve passar com maior intensidade, segundo informações divulgadas pelo Ministério das Comunicações.


Uma tempestade com as proporções da Grace, explica Calvetti, da Ufpel, se assemelha às tempestades de verão em São Paulo, comuns no início do ano e que costumam causar quedas de árvores, apagões elétricos, deslizamentos e problemas de mobilidade. Já no estado é possível observar as consequências, mas a infraestrutura precária do Haiti, fragilizada pelo terremoto, agrava a situação.


“Se fosse em qualquer outra região, isso não seria um problema. Só seria dada dimensão semelhante se fosse um furacão, mas, devido à vulnerabilidade do Haiti, a situação será triste”, diz o meteorologista.


O terremoto de sábado pode ainda aumentar a chance de deslizamentos de terra ocasionados pela tempestade tropical, explicou Robbie Berg, do Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos, ao New York Times. “É possível que partes do solo tenham sido deslocadas, o que tornaria os deslizamentos mais fáceis.”


A tempestade contornou Porto Rico no domingo e segue para Haiti e República Dominicana. Em seguida, se dirige para a ilha de Cuba antes de ir para o norte, na Costa Leste dos Estados Unidos.


A Grace é a sétima tempestade da temporada de furacões do Atlântico neste ano e vem na esteira da tempestade Fred, que ao longo da semana passou por República Dominicana —onde deixou milhares sem eletricidade e água encanada— Cuba e Flórida (EUA).


Entre os haitianos, prevalecem os sentimentos de medo e frustração, como se o caos social não desse trégua. "Um problema atrás do outro: na sexta-feira, estávamos preocupados com o impasse no caso Jovenel Moïse; sábado foi o sismo; no domingo, temíamos reviver o fracasso da ajuda como em 2010 e nesta segunda já tememos os estragos da tempestade tropical", escreveu o jornalista Frantz Duval, diretor de Redação do jornal haitiano Le Nouvelliste, em uma rede social.


O país caribenho, que assistiu a um presidente ser assassinado a tiros em 7 de julho, convive com a atuação de gangues locais, que intensificam o cenário de violência.


Em relação à Covid-19, a situação também é desafiadora. Com 20.500 casos da doença confirmados e 576 mortes —números oficiais reconhecidamente subnotificados, devido à ausência de testagem—, o Haiti começou a vacinar a população apenas em julho, após receber doses doadas pelos EUA.
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