Convencer mais americanos a se vacinarem será principal desafio de Biden, diz acadêmico




A aceleração da vacinação contra a Covid nos EUA foi um grande trunfo de Joe Biden no início de sua Presidência, mas agora o desafio será convencer mais pessoas a se vacinarem, avalia Jonathan Hanson, professor de ciência política na Universidade de Michigan.



"Estamos chegando ao ponto no qual a questão não será a falta de vacinas, mas a de convencer as pessoas a se vacinarem. Um grande segmento da população ainda está cético sobre isso", diz ele.


Desde meados de abril, os Estados Unidos disponibilizam o imunizantes a todos com mais de 16 anos. Nesta sexta (30), 143 milhões de americanos haviam tomado ao menos a primeira dose, sendo que 100 milhões (30% da população) estavam completamente vacinados.


Hanson, 50, é doutor em ciência política pela Universidade de Michigan, onde pesquisa, a partir de estatísticas, como as decisões políticas geram efeitos na sociedade. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, ele fez uma análise do início do governo Biden, em áreas como política interna, diplomacia e imigração.





PERGUNTA - Quais foram as principais conquistas de Biden até agora?


JONATHAN HANSON - Seu governo tem sido muito eficaz ao acelerar a distribuição das vacinas da Covid. Ele elevou a meta e propôs atingir 200 milhões de doses aplicadas antes de cem dias de governo, e ela foi alcançada uma semana antes do previsto. Ao agir muito mais rápido do que o esperado, ele colocou o país no caminho para um verão [que começa em junho nos EUA] e um outono muito mais próximos do normal.


A aprovação do plano de resgate de US$ 1,9 trilhão foi uma grande vitória legislativa. É esperado que esse pacote tenha sucesso em ajudar na recuperação econômica. Prioridades políticas dos democratas foram incluídas nele, como um aumento nos créditos de impostos para famílias com crianças, ajuda para a educação pública e subsídios ampliados para seguro-saúde, entregues por meio do chamado Obamacare.





E em que áreas ele não foi bem?


JH - O governo tem cometido alguns erros atípicos. Primeiro, anunciou que o número de refugiados a serem admitidos pelos Estados Unidos permaneceria no mesmo nível, muito baixo, estabelecido no governo Trump. Isso gerou críticas imediatas dos aliados do presidente no Congresso, e o governo aparentemente recuou.


Imigração permanece sendo um gatilho para mobilizar a base republicana, então é esperado que os oponentes de Biden vão aproveitar todas as oportunidades para chamar a atenção para o grande número de pessoas na fronteira. Essa é uma situação que o governo precisará gerenciar de forma competente ou terá um problema político.


Segundo, a administração foi lenta ao responder quando se tornou claro de que a Índia estava precisando desesperadamente de ajuda com uma explosão de casos de Covid, ao mesmo tempo em que os EUA estão “sentados” em milhões de doses de vacinas da AstraZeneca que não foram aprovadas para uso doméstico.





Qual será o principal desafio do governo nos próximos meses?


JH - Para deixar a pandemia para trás, temos de vacinar uma fatia maior da população. Estamos chegando ao ponto no qual a principal questão não será a falta de vacinas, mas a de convencer as pessoas a se vacinarem. As campanhas estão sendo feitas, mas um grande segmento da população ainda está cético sobre usar máscaras e se vacinar. O risco é que o vírus vai perdurar se não atingirmos o estágio de imunidade de rebanho.





Biden tem conseguido pacificar o país e reduzir o radicalismo interno?


JH - Biden mudou dramaticamente o tom vindo da Casa Branca. Esse é um contraste marcante com [o ex-presidente Donald] Trump, que fazia tudo girar ao redor de si mesmo e atiçava controvérsias continuamente, com tuítes incendiários e xingamentos. Biden é, de modo revigorante, insípido e entediante, e isso cria uma sensação de calma.


É muito cedo para dizer se essa mudança está curando as divisões na sociedade americana. Provavelmente, essas divisões não vão desaparecer por muitos anos. Elas são profundamente culturais e enraizadas no medo de mudanças demográficas na América, que tornarão os EUA um país formado majoritariamente por minorias em algumas décadas.


Os republicanos também descobriram ser muito difícil retratar Biden como um radical. As táticas que funcionaram tão bem para instigar sua base contra Barack Obama parecem fracassar contra Biden. O presidente tem avançado em medidas legislativas altamente populares, como o de resgate econômico e o plano de infraestrutura, e os republicanos decidiram lutar contra esses pacotes. Eles não superaram Trump, e isso pode afetá-los nos próximos anos.





O presidente tem buscado liderar as ações globais contra as mudanças climáticas. Como isso tem sido recebido na política americana?


JH - Essas ações eram muito esperadas e não parecem gerar uma reação significativa. A maioria dos americanos reconhece a realidade das mudanças climáticas e apoia que o país volte a se unir aos esforços globais para combatê-la. Aqueles que pediam por isso estão satisfeitos em ver progresso.





Biden tem procurado dar mais proeminência à vice, Kamala Harris. Na sua avaliação, ele tem conseguido?


JH - Biden tem dado oportunidades para a vice-presidente tomar a liderança em questões importantes. É difícil avaliar se isso tem tornado Harris mais proeminente, mas ao longo do tempo isso pode ajudar mais americanos a vê-la como pronta para assumir a Presidência.





O presidente tem subido o tom contra a Rússia e adotado um menos agressivo do que Trump com a China. Como avalia esses movimentos?


JH - A linha mais dura contra a Rússia era esperada, já que Trump deixava [o presidente russo Vladimir] Putin muito confortável. A situação na Ucrânia é um estopim em potencial, e é algo para acompanhar com cuidado. Putin está enfrentando uma oposição política doméstica significativa, o que aumenta o peso da situação.


Com a China, os EUA continuam a navegar por uma relação difícil. Os dois países têm laços econômicos fortes, e o poder crescente da China tem se tornado mais assertivo nos últimos anos. É também algo a se acompanhar de perto.





Como avalia a relação atual entre Brasil e EUA? Biden de fato deixou para trás a questão de que Bolsonaro era um fã de Trump?


JH - Ao contrário de Trump, conhecido por guardar rancor, Biden é pragmático. Ele é experiente em política externa e entende que você não precisa ter sempre uma relação olho no olho ao negociar com outros líderes.





RAIO-X


Jonathan Hanson, 50


Professor na escola de políticas públicas Gerald Ford, na Universidade de Michigan, onde fez doutorado em ciência política. É graduado em administração pública em Harvard e foi assistente legislativo e gerente de campanha do ex-senador democrata Tim Johnson, nos anos 1990.
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