Com estagnação e inflação, Bolsonaro segue rota de Dilma pré-impeachment




SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) está fazendo o Brasil reviver o insólito cenário de forte aceleração da inflação com queda da atividade econômica.
A combinação, conhecida como "estagflação" -quando estagnação econômica, ou recessão, convive com preços em alta- foi a principal marca dos meses que precederam o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, a partir de maio de 2016.




Sob Bolsonaro, apesar de a economia ter encolhido 4,1% no ano passado e caminhar para uma possível estagnação neste primeiro semestre, a inflação deverá atingir 7% em meados do ano.

Raramente isso acontece, pois atividade deprimida tende a segurar os preços -a não ser que outros motivos, estruturais ou políticos, detonem o fenômeno.


O principal fator para o cenário de economia fraca hoje é a pandemia da Covid-19, que impede uma retomada mais livre e que tem causado distorções no mercado.

Mas, segundo especialistas, a postura errática do presidente em relação ao equilíbrio das contas públicas, além de suas intervenções, como no episódio Petrobras, tem pressionado o valor do dólar para além do que os fundamentos econômicos justificariam, alimentando exageradamente a inflação.

Nos últimos 12 meses, o dólar subiu quase 30% frente o real, uma das moedas que mais se desvalorizaram no mundo, tornando mais caros os produtos importados ou denominados na moeda americana.

Neste início de 2021, os valores em reais (impactados pelo dólar) de commodities internacionais agrícolas, metálicas e dos combustíveis tiveram alta conjunta inédita -pressionando preços em várias cadeias produtivas, de alimentos e bens duráveis à da construção civil.

O aumento de preços de alguns desses itens, que compõem a taxa oficial de inflação (o IPCA) já é superior ao verificado nos últimos meses do governo Dilma. Em 2015, último ano completo sob o comando da petista, a economia encolheu -3,5%; e os preços subiram 10,6%.

Hoje, um dos poucos setores em que a aceleração da inflação ainda está abaixo do período pré impeachment é o de serviços, impactado pelo isolamento social. Mesmo assim, há pressões consideráveis nesse item.


Outros preços, como de passagens de ônibus, não reajustados no ano eleitoral de 2020 (prefeitos), e dos planos de saúde, congelados no ano passado (mas que devem subir duas vezes neste ano) devem jogar mais lenha na inflação.

Para André Braz, analista do Índice de Preços ao Consumidor da FGV/Ibre, há neste momento uma tendência de maior "espalhamento" da inflação, com os preços no atacado (por conta das commodities) contaminando a economia.

Segundo ele, enquanto a inflação em 2020 ficou muito concentrada nos alimentos, a medida em que a atividade ganhar mais de tração, apesar da Covid, a tendência é que as empresas repassem outros custos a seus preços, sobretudo os trazidos pela alta do dólar.

"Embalagens que usam alumínio, construções que empregam fios de cobre e geladeiras que consomem aço, tudo isso pode sofrer repasses", exemplifica.

Nesse cenário, e sem investimentos, Braz considera muito difícil o Brasil voltar a crescer, criando um quadro de estagnação com inflação (estagflação) que "pode piorar", na sua opinião.

Se a economia continuar crescendo pouco -tendência que persiste desde 2014, inclusive com PIBs negativos em 2015, 2016 e 2020-, as empresas que não puderem repassar custos também tendem a cortar a produção e a demitir, deprimindo ainda mais a atividade.

Para Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, apesar de a inflação no setor de serviços ainda estar sob controle, ela está acelerando.

Segundo ele, com a vacinação ganhando força em todo o mundo e a economia global em recuperação, é possível que haja um ciclo duradouro de preços em alta das commodities, cotadas em dólar.

Com a moeda americana cara no Brasil, esses produtos -essenciais para a cadeia produtiva- continuariam pressionando a inflação.


É nesse contexto que a postura do presidente seria prejudicial. "Bolsonaro parece estar cada vez copiando a ex-presidente Dilma na economia, o que é muito ruim para as expectativas", diz Vale, destacando a intervenção na Petrobras e os sinais trocados a respeito das contas públicas.

Para Livio Ribeiro, pesquisador da FGV/Ibre, a pandemia causou uma espécie de "torção" na inflação, deprimindo os preços dos serviços, à medida que as pessoas ficaram mais em casa, e aumentando os de alimentos e produtos domésticos, como de eletroeletrônicos.

"Conforme houver uma normalização, ocorrerá também uma 'destorção', com os preços dos serviços acelerando", afirma. "A pergunta de um milhão é o quanto do aumento dos outros itens é temporário ou se tornará permanente."

O principal problema, a excessiva valorização do dólar, no entanto, pode persistir, pressionando a inflação pela via do aumento dos preços em reais das commodities metálicas, agrícolas e dos combustíveis -sobretudo se elas continuarem se valorizando na esteira de uma recuperação mais firme no exterior.

Pelos cálculos de Ribeiro, "o fogo amigo" provocado por uma espécie de "pântano institucional" no governo Bolsonaro é hoje a principal causa da disparada do dólar -e explicaria a maior parte da desvalorização do real nas últimas semanas.

Nessa linha, outros dados mostram que e o "custo Bolsonaro" levou o chamado "risco Brasil" a deslocar-se negativamente do conjunto das demais economias emergentes, com o mercado cobrando prêmios de risco crescentes para se proteger de eventuais perdas em investimentos no país.

Para Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco, esse quadro pode ganhar dimensões dramáticas caso o Brasil abandone o chamado teto de gastos (que limita o aumento da despesa pública à inflação dos 12 meses anteriores) ou insira volumes consideráveis de desembolsos "extra teto" no combate à Covid-19.

Isso não apenas aumentaria o "risco Brasil" como pressionaria ainda mais o dólar, com impactos crescentes na inflação.

Exemplo eloquente do tema, na quarta (3), só a declaração do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), de compromisso em manter o teto de gastos inverteu tendência de forte valorização do dólar e estancou queda de mais de 3% que se desenhava no pregão da Bovespa.

Se esse compromisso com o teto for mantido, Honorato avalia que a pressão sobre a inflação tende a se dissipar no segundo semestre, quando repasses da alta abrupta dos preços das commodities forem absorvidos.

A maioria dos economistas acredita, porém, que o Banco Central pode ver-se obrigado a subir a taxa básica de juros (a Selic, hoje em 2% ao ano) antes e com mais força do que o previsto no final de 2020. Tudo por conta das atuais pressões inflacionárias, do dólar e do "custo Bolsonaro".

Isso teria impacto negativo não só sobre o crescimento, pois financiamentos ficariam mais caros, mas sobre a correção do valor da dívida pública, hoje a maior em relação ao PIB (quase 90%) entre os emergentes -o que traria mais insegurança, menos investimentos e menor crescimento.

"Infelizmente, a inflação no Brasil não é questão resolvida. A inação do Banco Central pode levar todas as expectativas para cima de forma muito perigosa", diz Vale, da MB Associados.
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