Pandemia e Alinhamento Com Trump Desgastaram Relação Brasil-China Em 2020




Quando o líder chinês Xi Jinping deixou Brasília depois da cúpula do Brics, em novembro do ano passado, havia a expectativa entre diplomatas no Itamaraty de que os episódios mais turbulentos na relação entre o governo Jair Bolsonaro e a China tivessem ficado para trás.




Bolsonaro havia voltado recentemente do país asiático com promessas de investimentos bilionários em infraestrutura e a sinalização de que estatais chinesas de petróleo participariam do leilão do pré-sal. Na visita de Xi ao Brasil, o encontro do Brics (grupo que também reúne Rússia, Índia e África do Sul) foi organizado com especial deferência aos chineses, recebidos na véspera para um dia inteiro de reuniões bilaterais no Itamaraty.

"A China cada vez mais faz parte do futuro do Brasil", disse um entusiasmado Bolsonaro ao lado de seu contraparte chinês.


Mais de um ano depois, as apostas em um 2020 sem solavancos no relacionamento dos dois países se frustraram. O momento político atual parece pior inclusive que o do início do mandato de Bolsonaro, quando Pequim olhava para o presidente recém-eleito com desconfiança diante da visita que ele fizera a Taiwan e das declarações de que a China ?estava "comprando o Brasil".


Ao longo deste ano, autoridades do governo Bolsonaro –entre as quais o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente– bateram boca nas redes sociais com a embaixada da China em Brasília.


O próprio presidente Bolsonaro afirmou que não confiava numa vacina produzida na China devido à sua "origem", uma declaração que, se não teve resposta pública, foi recebida com indignação por autoridades chinesas.


Como a China se transformou de esperança de investimentos em principal inimigo externo do bolsonarismo?



Diplomatas da ativa e aposentados avaliam que a deterioração política na agenda bilateral neste ano ocorreu principalmente pela decisão do governo Bolsonaro de imitar a retórica anti-China do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.


"Foi um ano atípico do ponto de vista de política externa, porque nós ficamos muito influenciados pelo acirramento da visão americana da China", afirma Marcos Caramuru, ex-embaixador do Brasil em Pequim e hoje sócio da Kemu Consultoria.


"Foi um ano complicado devido às eleições nos EUA. E Trump apostou tudo o que podia nas suas diferenças com a China", afirma Luiz Augusto de Castro Neves, também ex-chefe da missão brasileira na China e hoje presidente do CEBC (Conselho Empresarial Brasil China).


A avaliação é partilhada por diplomatas da ativa, que falaram com a reportagem sob condição de anonimato. Para eles, Bolsonaro decidiu atender ao núcleo mais ideológico do governo –do qual o chanceler Ernesto Araújo faz parte– e imitou a narrativa do "vírus chinês" que Trump encampou de olho no ano eleitoral.


A retórica anti-China também se acentuou durante a "guerra da vacina" travada entre Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Para desqualificar a Coronovac, defendida por seu adversário político, o presidente passou a atacar a origem do imunizante e disse que ele não transmitia confiança.
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