Apesar de ser 2º em mortes, Brasil só sequenciou 0,024% de genomas do coronavírus




Apesar de ser um dos países com mais casos do novo coronavírus, o Brasil está entre os que menos compartilhou informações genômicas sobre o patógeno até aqui. De acordo com a Agência FAPESP, foram publicadas 1.828 sequências por grupos brasileiros na plataforma Gisaid, na qual cientistas de diversos países compartilham informações sobre a doença em tempo real.



A título de comparação, o líder em publicações, o Reino Unido, possui 137 mil do total de 323 mil sequências publicadas até 5 de janeiro de 2020. Por esse motivo, o país foi o primeiro a perceber a nova variante B.1.1.7, considerada entre 50% e 70% mais transmissível que a originária de Wuhan, na China.



Essa nova cepa foi detectada no Brasil pela primeira vez em 31 de dezembro, em amostras de dois pacientes com suspeita de COVID-19 atendidos em São Paulo. Os estudos foram coordenados pela professora Ester Sabino, em parceria com pesquisadores do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e da rede de laboratórios Dasa.



Sabino indica que os recursos humanos e materiais disponíveis no Centro Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE), projeto apoiado pela FAPESP e originalmente destinado ao estudo de doenças como dengue e zika, foram preponderantes para eles atingirem 600 genomas completos sequenciados do coronavírus. O número representa 30% do total registrado pelo Brasil.



Com base nos dados da Universidade Johns Hopkins, Darlan Cândido, integrande do CADDE e doutorando da Universidade de Oxford, "o Brasil sequenciou apenas 0,024% dos casos confirmados no país, enquanto no Reino Unido esse índice chega a 5%”.



Na comparação com vizinhos sul-americanos, o Brasil ainda leva certa vantagem. A Argentina sequenciou 0,003%. A Colômbia, 0,013%, e a Venezuela 0,010%. Ainda assim, o país presidido por Jair Bolsonaro stá atrás de outros países emergentes, como Índia (0,042%), México (0,096%) e África do Sul (0,256%) – esta última já depositou quase o dobro (2.882) de sequências na plataforma Gisaid, embora o Brasil tenha uma quantidade de casos confirmados cerca de sete vezes maior.



De acordo com Cândido, as informações brasileiras estão mal distribuídas no tempo e espaço. “Mais de 75% das sequências disponíveis hoje vêm da região Sudeste e isso limita muito o entendimento do que está acontecendo no restante do país. Além disso, a maior parte dos dados foi gerada no primeiro semestre de 2020. Somente 8% das sequências foram publicadas entre os meses de agosto e dezembro, tornando impossível saber, por exemplo, há quanto tempo a nova variante está circulando no país e o quão disseminada ela está”, lamenta.



A causa desse "apagão" no segundo semestre de 2020 não dá pra ser precisada, segundo os cientistas. “No nosso caso, tivemos problemas para importar alguns insumos que estavam em falta no mercado nacional. Recebemos um lote de reagentes de má qualidade e tivemos de importar novamente. Além disso, estávamos finalizando projetos iniciados no primeiro semestre, um deles com o objetivo de entender a taxa de transmissão hospitalar", conta a doutoranda da Faculdade de Medicina (FM) da USP, Ingra Claro.



Coordenador da Rede Corona-ômica, criada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia para liderar esforços de vigilância genômica no país, o virologista Fernando Rosado Spilki assume o atraso no último semestre.



“Boa parte das sequências publicadas no primeiro semestre foi feita com verbas de projetos sobre outros temas que já estavam vigentes e foram redirecionadas para pesquisas sobre o SARS-CoV-2. Apesar de as agências de fomento terem feito um grande esforço para liberar rapidamente mais recursos, existem entraves burocráticos que tornam esse processo demorado”, explicou, à Agência FAPESP.



Porém, ele garante que novas sequências, que ainda estão em processo de análise devem ser publicadas nas plataformas internacionais muito em breve.



Atualmente, há 38 linhagens diferentes de SARS-CoV-2 circulantes no Brasil, informa Darlan Cândido. As três variantes de origem europeia que apareceram em São Paulo e Rio de Janeiro em fevereiro de 2020 são as predominantes.



No mundo, Sabino afirma que 800 linhagens do novo coronavírus já foram identificadas.
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