Os riscos de um embate entre Bolsonaro e Maia




Um presidente da República pode brigar com muita gente. Só não recomendo que entre em uma batalha contra um presidente da Câmara dos Deputados. A ex-presidente Dilma Rousseff aprendeu isso a duras penas. Ou melhor, não aprendeu, já que insiste na tese de que houve um golpe, mas isso não é razão para novas colunas. Só o PT e seu entorno continua usando essa justificativa como razão para todos os males do Brasil. Porém o exemplo de Dilma deveria ser bem simbólico para quem está no poder.



A petista não cedeu às pressões do então todo-poderoso Eduardo Cunha (MDB). Depois de articular uma campanha de oposição ao governo para a presidência da Câmara, Cunha foi o algoz do processo de impeachment de Dilma, com uma desculpa bem esfarrapada. A razão crucial para a queda de Dilma não foram as pedaladas fiscais, mas a falta de timing político para lidar com a Câmara e com um político disposto a jogar baixo, como aconteceu com o agora presidiário que estava à frente dos deputados.



Agora, em meio ao debate sobre sucessão na Casa, o atual presidente da República, Jair Bolsonaro, entrou mais uma vez em confronto público com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Bolsonaro foi parlamentar durante os dois processos de impeachment da chamada nova República. Sabe como funciona bem os meandros do Legislativo. E precisa medir bem até que ponto vale esticar a corda contra Maia, praticamente o único homem que pode deflagrar uma crise institucional que pode gerar o afastamento do chefe do Executivo.



Na gaveta do presidente da Câmara já se acumulam algumas dezenas de pedidos de impeachment. Não há condições políticas convergentes que justifiquem a abertura desse processo. No entanto, Bolsonaro tem se esforçado com a beligerância que lhe é peculiar em criar ambientes de tensão dentro do Legislativo e também com a sociedade. Maia não é ardiloso como o conterrâneo Cunha, mas nada o impede de agir politicamente para puxar o freio de mão do desgoverno atual. A condução errática da pandemia é apenas a parte mais visível dessa falta de tato para administrar o país - algo que é rechaçado pelos apoiadores, mas cada vez mais perceptível nos “pecados” institucionais cometidos.



Depois de tantas tentativas de gerar instabilidade institucional - vide o apoio a protestos antidemocráticos e aos ultimatos ao Supremo Tribunal Federal e ao Congresso Nacional -, Bolsonaro pisa no terreno mais pantanoso para um presidente da República, a Câmara dos Deputados. Ou ele vence a batalha ou é bom se preparar para a hipótese de perder a guerra. Maia é quem tem menos a perder.
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